O livro esquecido que guarda pedaços de mim

Há livros que não são apenas páginas e tinta. Este, em particular, estava esquecido numa prateleira empoeirada, quase a desaparecer entre outros esquecimentos. E, quando o toquei, percebi que guardava pedaços de mim que eu não sabia que ainda existiam.

As páginas cheiravam a passado: a infância, os amigos que a vida dispersou, o riso das manhãs que nunca mais voltaram, a saudade do meu pai e dos meus avós. Cada palavra parecia sussurrar histórias que eu própria já tinha esquecido, lembrando-me do que fui, do que amei e do que perdi.

Abrir aquele livro foi como abrir uma gaveta secreta dentro de mim. Páginas amareladas, rabiscos esquecidos, pequenas notas que ninguém escreveu para ninguém, mas que continuavam ali, como se esperassem que eu voltasse. E eu voltei. Para sentir a nostalgia, a dor escondida, mas também para encontrar pequenas alegrias que ainda sobrevivem, apesar da distância e do tempo.

Enquanto folheava, cada capítulo parecia conversar comigo. Uma frase lembrava-me do riso de amigos que a vida levou para longe; outra trazia o cheiro das manhãs em que o mundo parecia infinito, e eu me sentia segura mesmo diante do desconhecido. Havia palavras que me faziam sorrir, lembrando-me de pequenos milagres do quotidiano, e outras que apertavam o peito, lembrando-me das ausências que ainda doem.

Talvez seja isso que torna os livros tão mágicos: eles guardam vidas. Não apenas a do autor, mas a nossa própria, impressa entre linhas, entre capítulos, entre parágrafos esquecidos. Eles sabem ouvir sem interromper, acolher sem julgar, e lembrar-nos de que a vida é feita de encontros e partidas, de silêncios e palavras nunca ditas.

Senti também a força do meu próprio silêncio nas entrelinhas. Silêncio que tantas vezes é dor e tristeza, que disfarço sorrindo, que oculta saudade e cansaço. No entanto, ali, naquele livro esquecido, percebi que não sou apenas o que escondo; sou também a memória viva de quem fui, a coragem de continuar a sorrir para os outros, a força de oferecer alegria apesar das perdas, das partidas, das lágrimas não derramadas em público.

E o livro parecia sussurrar-me algo que eu já sabia, mas precisava ouvir de novo: que nada do que se perde se perde por completo. Que pessoas que partiram, amigos que se afastaram, momentos que escaparam, ainda vivem em nós, como fragmentos de luz entre sombras. Que a dor e a saudade não nos tornam frágeis, mas humanos, capazes de sentir e de dar sentido à vida mesmo quando o coração se aperta.

Enquanto fechava o livro, senti que levava comigo um pedaço do passado, mas também um lembrete silencioso de que estou inteira. Que posso carregar saudades, memórias, silêncios, mas ainda assim continuar a caminhar, a sorrir, a dar o melhor de mim todos os dias. Que cada livro esquecido é também uma promessa: de que há sempre tempo para reencontrar partes de nós que julgávamos perdidas.

E assim, deixo o livro na estante, com a certeza de que ele continua a guardar pedaços de mim, silencioso e paciente, esperando que eu volte outra vez. Porque alguns segredos, algumas memórias, não podem desaparecer; apenas esperam por mãos capazes de os reconhecer e abraçar.


PB

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