O Elogio do Erro

Errar devia ser património da humanidade.

Não há nada mais humano do que tropeçar nas próprias intenções. O erro é o nosso sotaque — essa maneira única e imperfeita de existir. É o som do mundo quando ainda está a ser aprendido.

Há quem passe a vida a tentar não falhar, como se viver fosse uma prova de equilíbrio. Mas quem nunca caiu, não sabe a forma exata do chão. E o chão é importante — é ele que nos ensina a levantar, que nos devolve o peso das coisas, que nos recorda que somos feitos de gravidade e esperança.

Falhar é um exercício de humildade.
É o universo a dizer-nos que ainda há muito por descobrir.
E é bom que assim seja. Se tudo desse certo à primeira, morreríamos de tédio — e de soberba.

Cair, por outro lado, é uma espécie de voo ao contrário.
O corpo desce, mas o espírito sobe.
Há um instante, entre o susto e o impacto, em que tudo fica suspenso: o tempo, o medo, a certeza. É nesse breve intervalo que percebemos que viver é sempre arriscar um pouco mais do que sabemos.

Aceitar o erro é uma forma de sabedoria.
Não dessas que se aprendem nos livros, mas das que se colhem no silêncio — entre o remorso e o riso.
Aceitar o erro é aceitar-se inteiro: o que se foi, o que se tentou, o que ainda dói.

Reerguer-se não é um ato heróico. É apenas natural.
As árvores também caem no outono e regressam à vida na primavera, sem fazer alarde. Nós é que complicamos o recomeço, como se fosse vergonha nascer outra vez.

Talvez fosse bom errar mais.
Falhar com elegância, cair com poesia.
Rir do tropeço, agradecer à pedra, pedir desculpa ao chão.
Porque no fundo, é o erro que nos salva do fim — é ele que nos mantém a caminho, que nos obriga a inventar novas direções.

E se há alguma perfeição possível, é esta: a de continuar a tentar, mesmo depois de saber que vamos falhar outra vez.

PB

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