It's just me
Sou naturalmente inquieta.
O caos mora em mim como nuvens baixas, densas, que se arrastam pelos cantos do quarto.
Tropeço mil vezes em mim mesma, cada queda um lampejo de luz que me revela inteira e fragmentada ao mesmo tempo.
Sou mais do que vêem.
Menos do que dizem.
Sou mais do que o código de barras dos medicamentos que tomo para me manter à tona.
Eles não captam o som da minha respiração, a curva do meu sorriso, a pressa dos meus pensamentos.
Sou difícil. Mutável. Contraditória.
Mas nunca caio em contradição.
Tenho apenas hesitações que ecoam, como passos em corredores vazios, e impasses que tremem no limite da pele.
De manhã, sou pouco. Poucas palavras, pouco tempo, pouca luz.
Ainda assim, dispenso todas as legendas: o meu silêncio já fala por mim.
Sou teimosa.
Silêncio escuro na madrugada imperfeita,
campo minado na linguagem terapêutica de um microscópio emocional que jamais me decifrará.
Sou o sussurro que se dobra mas que não se quebra.
Sou livre.
Livre como corrente de ar que atravessa janelas abertas, dobra árvores e prédios, invade cidades sem ser vista.
Sou vento que insiste, que não pede licença, que carrega as minhas hesitações e os meus medos, e ainda assim os transforma em voo.
E é nesse voo — nessa irregularidade, nesse ritmo torto e precioso — que me encontro inteira.
Inteira com o medo.
Inteira com a ansiedade.
Inteira com o caos.
Inteira com a corrente de ar que ainda me leva adiante,
rasgando paredes, atravessando mundos, sem nunca se prender.
PB
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