Domingo de sol

 Entre o trabalho, o amor e o cheiro de bolo quente

Hoje o sol acordou antes de mim e pousou-se nas janelas com a delicadeza de quem pede licença para entrar. Há domingos que são descanso, mas este é feito de movimento. A casa cheira a tarefa, a lista por cumprir, a café recém-passado — o combustível dos dias em que é preciso seguir, mesmo com preguiça nos ossos e sonhos por arrumar.

Ao meu lado, o cão dorme, confiando no mundo de um jeito que eu invejo. É o meu companheiro fiel, o guardião silencioso das horas que passo a trabalhar. De vez em quando, abre um olho, talvez para se certificar de que ainda estou aqui, a digitar ideias, a alinhar pensamentos, a tentar dar forma ao caos.

Lá fora, o sol espalha-se pelos muros, pelos vasos e pelas vozes de domingo que ecoam na rua. Dentro, o dia tem sabor de família. Hoje celebramos o aniversário do pai desta casa — o centro silencioso de tantas rotinas, o porto onde tudo se organiza. Há bolo de côco e chocolate, e o cheiro mistura-se ao vapor do café e à vida que ferve em pequenos gestos.

Entre o trabalho e as pausas, penso que talvez a felicidade seja isso: conseguir misturar o dever e o prazer num mesmo prato. Trabalhar enquanto o cão respira devagar, enquanto o sol desenha sombras no chão, enquanto o bolo aguarda e a família ri ao fundo.

Hoje não é domingo de descanso — é domingo de continuidade. De amor em forma de rotina, de festa simples, de companheirismo e cheiro doce. O trabalho espera na mesa, mas a vida, essa, acontece entre um gole de café e o som do forno a avisar que o bacalhau com natas está pronto.

Há uma magia secreta em dias assim — quando o tempo se dobra, e tudo cabe dentro de um mesmo instante: o cansaço, o amor, a pressa e o cheiro de côco e chocolate.


PB

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