Autoestima sem filtros e sem likes

A autoestima é um dos pilares fundamentais da formação pessoal, especialmente na juventude — uma fase marcada por intensas transformações físicas, emocionais e sociais. Ter uma boa autoestima significa reconhecer o próprio valor, aceitar as próprias limitações e acreditar nas próprias capacidades. No entanto, para muitos jovens, esse equilíbrio é difícil de alcançar num mundo repleto de comparações, pressões e expectativas.

E se a autoestima, em tempos normais, já é um assunto complicado, na era dos filtros, stories e likes a autoestima virou um luxo — quase um item de colecionador, tipo máquina de escrever ou gente que olha nos olhos.

Hoje, é fácil confundir autoestima com boa iluminação. Ou com um ângulo que faz o nariz parecer o nariz da colega. Ou com o filtro Paris, aquele que faz qualquer um parecer que dormiu 8 horas, bebeu 2 litros de água e meditou em Bali, tudo antes do pequeno-almoço. (Spoiler: não aconteceu.)

Na verdade, estamos todos cansados de fingir. Fingimos que estamos bem, que somos felizes, que temos a vida controlada — tudo com uma selfie pensada durante 23 minutos e publicada com uma legenda filosófica retirada do Pinterest. Porque nesta era, gostar de si mesmo parece só possível se o mundo inteiro gostar primeiro. Se validarem. Se partilharem. Se comentarem: “perfeitaaaa ❤️🔥”.

Mas, então, como se melhora a autoestima neste circo de aparências?

Primeiro, desliga. Sim, desliga mesmo. O Wi-Fi, o Instagram, o modo de comparação automática. Desliga a mania de achar que és menos só porque a influencer de lifestyle tem abdominais, filhos calmos e um pão de fermentação lenta no forno às 8 da manhã. Ela também chora, só não mete nos stories.

Segundo, escuta-te. A sério, escuta. Não os comentários. Não os likes. Mas o que tu pensas sobre ti, quando estás contigo e ninguém está a ver. A autoestima constrói-se nesses momentos: quando te aceitas como és e não como os outros gostavam que fosses com um filtro da moda por cima.

Depois, dá mais valor à tua humanidade do que à tua imagem. Tens borbulhas? Ótimo, quer dizer que tens pele. Tens olheiras? Melhor ainda: quer dizer que viveste, choraste, pensaste, talvez até viste uma série inteira numa noite. Parabéns. Estás viva.

E por fim, lembra-te: autoestima não é vaidade. É cuidado. É tratar-se bem, mesmo quando ninguém está a aplaudir. É saber rir-se de si própria, e saber dizer “não” com gosto. É ter defeitos, e mesmo assim não querer trocá-los por outra versão de ti mais instagramável.

Porque, no fundo, autoestima é aquilo que fica quando todos os likes se vão. E, spoiler: é isso que te vai salvar quando o algoritmo mudar (ou quando a tua alma pedir férias da perfeição).



PB

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