A delicadeza de não sermos todos iguais
Pela alegria da diferença que luta contra tudo o que nos quer iguais, ergue-se a infância escondida em cada um de nós, como se fosse um pássaro com as penas ainda molhadas da chuva. É nesse lugar de desordem luminosa que a vida encontra fôlego, porque não há música sem desafino, nem amor sem a estranheza de dois mundos que não encaixam à força mas se encostam devagar, em ternura áspera.
Há um cansaço antigo que insiste em uniformizar os gestos, como se as mãos tivessem de segurar todas as chávenas da mesma maneira, como se as bocas dissessem apenas palavras que caibam em dicionários domesticados. Mas a diferença, teimosa e bonita, abre brechas. e pelas brechas cresce um jardim insubmisso, onde cada flor nasce torta, como uma gargalhada que não pede desculpa por existir.
É preciso coragem para não ser cópia, para não vestir a pele do rebanho. mas também é preciso delicadeza: quem escolhe ser diferente não o faz para ferir, faz porque só respira assim, na desobediência do singular.
Pela alegria da diferença, a vida multiplica-se; e cada rosto deixa de ser apenas um número para voltar a ser história; e cada história, por mais estranha, funda um país invisível onde só existe uma lei: a de nunca amputar as cores que nos pintam desiguais.
E talvez a verdadeira luta seja essa: não contra quem nos odeia, mas contra o medo que quer roubar a nossa coragem de ser outra coisa que não espelho uns dos outros.
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