A chávena lascada que continua a ser a minha preferida

Há chávenas que guardam histórias, mesmo quando ninguém se lembra de lhes perguntar. Esta, em particular, está lascada numa extremidade, e talvez por isso seja a minha preferida. Porque cada lasca parece contar um segredo antigo, um pequeno acidente que se transformou em detalhe precioso.

Bebo nela todas as manhãs, ou quase todas, e sinto que a chávena me entende. Aceita o café quente, a chávena de chá apressada, até os dias em que decido que não quero nada além do conforto de um gole. Não se queixa do que lhe dou, nem tenta ser perfeita. Apenas está lá, silenciosa, oferecendo companhia.

Às vezes penso que nos parecemos com ela. Com pequenas lascas que escondemos do mundo, mas que, na verdade, nos tornam únicas. A vida vai deixando marcas — arranhões, falhas, momentos de descuido — e podemos escolher lamentar ou abraçar. Eu escolhi abraçar a chávena lascada.

Há algo de reconfortante em segurar uma chávena que já foi ferida, mas continua a servir. Dá-me coragem para acreditar que eu também posso continuar, mesmo com as imperfeições, mesmo com os dias em que sinto que me partem aos bocados. Cada lasca é lembrança de sobrevivência, cada mancha de café é prova de vida.

E o que torna esta chávena ainda mais especial é que ninguém mais lhe dá atenção. Para os outros, é apenas mais uma chávena. Mas para mim, é um refúgio diário, um pedaço de memória que se repete em cada gole. O seu imperfeito contorno lembra-me que não preciso de perfeição para ser feliz.

No fim, percebo que é isso que faz dela minha favorita: não é bonita de uma forma convencional. É bonita porque existe, porque resiste, porque me acolhe. E talvez seja exatamente isso que precisamos aprender com as coisas que amamos: não importa se estão lascadas, se têm manchas ou se falham às vezes. Importa que continuem a servir, a confortar, a nos fazer sentir em casa.

E assim, cada manhã, levanto a chávena, sinto o calor nas mãos, tomo um gole e sorrio. Porque, por mais que a vida quebre coisas à nossa volta, ainda existem chávenas lascadas — e pessoas — que nos lembram que continuar é possível, e que há beleza em cada detalhe imperfeito.


PB

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