Quando os filhos crescem, e nós ficamos à porta: entre a casa que abrimos e os quartos que deixam em silêncio

Há um momento em que os filhos já não nos pedem o colo com o corpo, mas com silêncios.

Pedem espaço com as portas fechadas, e mesmo assim queremos entrar — não para invadir, mas para ver se ainda cabemos lá dentro.

A maternidade muda, mas não avisa.
Um dia estamos a ensinar a apertar os sapatos, no outro a perguntar se ainda precisamos de mandar mensagem a dizer "avisa quando chegares".

A casa, antes cheia de brinquedos no chão, agora tem um vazio mais limpo.
E dói. Mas também alivia. E dói de novo — porque ninguém nos ensina que amar um filho grande é, muitas vezes, amar em surdina.

Durante anos, fomos o colo, o escudo, a resposta.
Agora, somos o lembrete — às vezes irritante — de que há uma base, um fundo, um afeto que não cobra nada em troca.

Mas é difícil abdicar da versão maternal que conhecemos.
Queremos continuar a preparar lancheiras emocionais, mesmo quando eles já almoçam fora — ou nem sempre dizem onde.
Queremos continuar a proteger, mesmo sabendo que crescer é aprender a cair sozinho.

E se calhar é aqui que se instala o verdadeiro amor:
Quando deixamos de ser guias para sermos farol.
Sem mapas, mas com luz.

São as novas dinâmicas familiares que exigem uma nova maternidade: mais escuta, menos interferência.
Mais presença invisível.
Mais coragem para aceitar que o amor não se mede pelo número de mensagens respondidas, mas pela liberdade que ajudámos a construir.

Eles crescem.
Mas nós também.

E talvez a maternidade agora seja isto:
Não querer voltar atrás, mas aprender a amar do lado de cá.
Na margem.
Na retaguarda.
No silêncio cheio de sentido.


PB

Comentários

  1. Que texto autentico, expressivo e maternal. Obrigada, subescrevo cada linha desta carta aberta a todas nós que passamos por estas momentos de adaptação ao nosso papel de mães. Obrigada Paula pela partilha e pelo belo texto.

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