O que é ser um bom professor (ou um quase mágico na sala de aula)

Ser um bom professor não é uma profissão. É um feitiço. Daqueles que se faz sem varinha, sem manual de instruções e, quase sempre, sem férias a sério.

Um bom professor sabe que ensinar não é despejar saberes como quem vira um saleiro em cima de uma sopa insossa. É temperar o mundo com perguntas — e às vezes, com silêncios. É ter a habilidade de olhar para um aluno e ver o que ainda não nasceu. E sorrir, como quem já viu.

Ser bom professor é ter um PhD em decifrar bocejos disfarçados, olhos perdidos na janela e corações partidos por amores de recreio. É saber que "não percebo" às vezes quer dizer "estou cansado", "estou triste", ou só "tenho fome". E mesmo assim, continuar a explicar com a paciência de quem acredita que ali há qualquer coisa bonita a desabrochar.

Um bom professor é o único ser humano que consegue repetir a mesma explicação 17 vezes — com entusiasmo na primeira, fé na nona e um leve desespero filosófico na décima quarta.

Acredito que os bons professores nos ajudam a crescer por dentro. Porque eles não ensinam só matemática, história ou gramática. Eles ensinam que errar não é um drama, que perguntar é um ato de coragem e que pensar com a própria cabeça é melhor do que decorar as ideias dos outros.

Ser bom professor é ser jardineiro de gente. É pôr a mão na terra, regar com palavras e esperar, com esperança e olheiras, que um dia aquilo floresça. E floresce, mesmo que o professor nem sempre veja.

Ser um bom professor é também ser resiliente e resistente para aguentar com as mudanças dos programas - que sempre que mudamos de governo, mudam também-, e ter calma com sistemas educativos que mudam de moda mais rápido que o cabelo dos adolescentes. Mas, ainda assim, lá está ele, firme: com marcadores coloridos, a alma remendada e um sorriso (às vezes irónico, às vezes heróico).

Por isso, quando um aluno me diz "obrigada, professora", para mim ele não está só a agradecer-me a aula. Está a agradecer-me o meu tempo, o meu afeto, a minha exigência e, vá, aquele meu olhar que dizia: "Força, eu sei que tu consegues".

Porque ser um bom professor é isso: não desistir de acreditar em quem ainda nem acredita em si.

E convenhamos: isso é mais do que ensinar.

É amar, só que com um quadro branco - e no meu caso, pronto a encher com muitos números e afeto.


PB

                                 🌼

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