Mochilas cheias, corações pesados

 

O problema não está nos livros de 700 páginas, mas nas expectativas que se infiltram entre as páginas.

As mochilas sempre foram feitas para carregar livros, cadernos, canetas, e às vezes um lanche esquecido no fundo. Mas há um outro peso, invisível, que nunca aparece nas etiquetas nem se mede em quilos: o das expectativas.

E é esse que mais dobra as costas dos adolescentes. Porque, no fim, não são os manuais de matemática nem os dicionários que tornam a caminhada pesada — mas sim a cobrança silenciosa de ser sempre melhor, de nunca falhar, de corresponder a sonhos que muitas vezes não são os deles.

Pais e professores, quase sem perceber, acrescentam pedras a essas mochilas invisíveis: “precisas de boas notas”, “tens de decidir o teu futuro”, “não podes desperdiçar oportunidades”. Esquecem-se de que a adolescência não é apenas um ensaio para a vida adulta. É vida — com tudo o que tem de riso, de susto, de descoberta.

No entanto, em vez de perguntar “o que tiraste no teste?”, talvez fosse mais importante perguntar “como te sentes?”. Porque nenhum adolescente devia aprender a viver já curvado, como se carregar o mundo fosse um destino inevitável.

Se as mochilas falassem, talvez suplicassem: “deixem-me guardar livros, não fardos invisíveis”. E se escutássemos os adolescentes, talvez descobríssemos que mais do que respostas, eles precisam de espaço para errar, de tempo para experimentar, e de afeto para acreditar em si próprios.

No fundo, crescer não é carregar expectativas. Crescer é descobrir, pouco a pouco, que a vida pode ser leve — e que até os maiores sonhos cabem numa mochila, desde que não sejam sonhos impostos, mas escolhidos por eles mesmos.


PB

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Querida C.

Boas notas, más notas (ou como tirar 80% e ainda levar sermão)

Quando a Inveja Fala Mais Alto: Ética, Educação e o Silêncio do Mérito