Coisas que ainda não sabem sobre mim.

Não sabem que gosto do silêncio como quem gosta de respirar fundo, lentamente, sem pressa de chegar a lugar algum. Que às vezes, quando o mundo parece demasiado alto, eu me escondo na cozinha, faço café e observo o vapor subir como se fosse uma nuvem em miniatura dentro da minha própria vida.

Não sabem que coleciono lembranças invisíveis: o cheiro da chuva na cidade, o barulho de passos apressados na calçada, o toque do sol sobre a pele quando ninguém olha. Que algumas palavras, mesmo pequenas, me transformam. Que às vezes escrevo cartas que nunca envio, cartas que são apenas para mim, para que eu me encontre dentro do papel.

Não sabem que tenho medos silenciosos, aqueles que não cabem em conversa, que se enredam nos cantos da mente e que só se aliviam quando estou sozinha, lendo, caminhando ou ouvindo música até que o mundo se reduza ao som de uma só nota.

Não sabem que rio sozinha com lembranças tontas, que canto baixinho logo de manhã, que me perco nas ruas apenas para descobrir o que há de escondido naquilo que parece familiar. Que o mundo me assusta e me encanta ao mesmo tempo, e que talvez seja por isso que escrevo: para não me perder entre o medo e a beleza que me circunda.

Sabem que adoro o meu cão Caju e a minha gata Emília, que a minha casa é mais alegre com eles por perto, mas não sabem que a minha cozinha não é apenas um lugar de comida, mas o meu laboratório secreto. Gosto de cozinhar, mas essencialmente, adoro alimentar aqueles que amo, e por isso transformo cada prato numa pequena alquimia de cuidado e afeto.

Muitos não sabem que sou engenheira química, e que, como os primeiros químicos, procuro o elixir da longa vida, porque a ciência e a magia se entrelaçam dentro de mim. Que adoro viver, que celebro o Natal com fervor, e que o outono é a minha estação favorita depois do verão, com as suas cores quentes e a luz suave que me abraça.

Não sabem que vivo mais feliz descalça que calçada, embora adore e colecione sapatos.

Mas sabem que adoro matemática, e os números que dançam como enigmas resolvidos no papel, e que adoro sobretudo os meus alunos. Sou professora por paixão, e com muita paixão: cada equação que ensino é também um pedaço de mim que se entrega, uma tentativa de mostrar que até nos números existe poesia, até na lógica há lugar para o afeto.

Não sabem, enfim, que tudo isto é apenas o começo de quem eu sou, que ainda há tanto não dito, tanto guardado, tanto que só se revela no silêncio da noite ou no lampejo de uma manhã qualquer. 

Por isso, sou metade segredo, metade claridade, sou a palavra não dita e ainda não escrita, o gesto que ainda não ousei, a vida inteira que ainda não vivi. Sou tudo o que partilho e tudo, o que aos poucos, permito que vão descobrindo de mim.

                    

                    🌼


PB

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