O elevador
A porta fecha devagar, como quem hesita em me deixar sozinha.
O espelho devolve-me um rosto que ainda não acordou completamente.
Talvez seja a luz fluorescente. Talvez seja eu.
No canto do elevador, um botão vermelho que promete salvar vidas.
Nunca apertei.
Mas gosto de saber que existe. Sossega-me.
No fundo, acho que todos carregamos cá dentro um botão de emergência, mas que ninguém vê.
O elevador desce com a paciência de quem sabe que não tem escolha.
Eu também.
E cada andar é um lembrete de que, às vezes, para chegar ao nível certo, é preciso atravessar todos os outros.
A porta abre. Fecha.
Gente entra, gente sai.
Trocamos olhares curtos, "bom dia" como se estivéssemos todos envergonhados de existir no mesmo cubículo.
Há um pacto silencioso: fingir que o outro não está ali para não ter que admitir que nós também estamos.
No andar térreo, o dia espera-me como um cachorro impaciente...
E quando a porta abre, dou um passo para fora e penso que talvez a vida inteira seja uma metáfora disso mesmo:
um monte de subidas e descidas num espaço pequeno,
com gente que entra e gente que sai,
e cada um segue na sua direção, ficando no ar a pergunta suspensa: quantos encontros não tivemos por medo de dizer apenas um “olá”?
🌼
PB
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