Há pessoas que morrem dentro de nós (ainda antes de partirem)

algumas pessoas morrem dentro de nós como folhas que caem no outono antes da tempestade. continuam a caminhar na luz, a rir sob o sol, mas dentro de nós já são inverno. carregamos pedaços de seus gestos como se fossem seixos nas mãos: lisos, frios, pesados, impossíveis de devolver ao rio.

elas esvaem-se no silêncio, evaporam em cada manhã em que não chegam, em cada palavra que já não nos dizem. morrem aos poucos, como rios que se secam sem que ninguém perceba, deixando apenas o leito vazio e a memória do movimento da água.

e nós continuamos a vê-las, a tocar o ar onde antes estavam, a ouvir o eco das vozes que já não respondem. é uma presença fantasmagórica, feita de saudade e luz difusa, uma sombra que dança entre o corpo e a lembrança.

a dor não é a ausência, é a percepção daquilo que se foi antes do adeus. é sentir que algo de amoroso, de íntimo, se esfarelou dentro de nós, enquanto o mundo segue, indiferente. é perceber que parte da vida daquela pessoa já habita apenas a memória, e que nós carregamos o resto como se fossem sementes de algo que nunca florescerá novamente.

mas no meio desta morte silenciosa, há beleza. a beleza das folhas que caem, do rio que seca, das sombras que dançam. aprendemos a andar com essas mortes interiores, a respirar com elas, a amar o que resta, mesmo sabendo que a totalidade se perdeu. porque talvez seja isso a vida: conviver com os fantasmas de quem já foi importante para nós, e descobrir, mesmo assim, que ainda há calor na lembrança, ainda há sol entre as nuvens do inverno que carregamos dentro do peito.


PB

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