Depois da dor

 Depois da dor ficou a sala em silêncio, como se as paredes também tivessem ouvido tudo.

Ficaram os olhos baixos, os pés descalços no chão frio, a respiração funda como quem procura ar dentro de si.
Tu foste buscar água, eu fui buscar coragem.

Houve um intervalo.
Não daqueles que separam os atos, mas os que marcam recomeços tímidos.
Tu voltaste com o copo meio cheio, eu voltei com as palavras meio soltas.
Tinhas ainda os ombros carregados, mas os olhos já não vinham armados.
Eu já não tremia. Só ardia.

Depois da dor, não veio o fim.
Veio a limpeza.
Aquela sensação de cama acabada de fazer depois de semanas em desalinho.
A leveza de um grito que se foi embora sem ter de ser engolido.

Não nos desfizemos — desatámos.
As nódoas do que calámos ainda estão no chão da memória, mas passámos a dançar por cima delas sem escorregar.
A verdade não matou o amor.
Fez-lhe cócegas.
E ele riu.
E nós rimos também, meio envergonhados, meio aliviados, meio tolos por termos achado que o amor era indestrutível só porque era nosso.

A alegria veio depois.
De mansinho.
Sem música alta nem fogos de artifício.
Veio no teu olhar quando disseste “obrigado por ficares”.
Veio no meu toque, que não pediu desculpa por tocar.

Depois da dor, a alegria não foi festa.
Foi pão quente.
Foi abraço demorado.
Foi paz sem ponto final.

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