Há uma pobreza que não é material, mas ética e intelectual, e ela revela-se com clareza quando alguém opta por dizer mal dos outros e do seu trabalho, não por crítica construtiva, mas movido pela inveja. A incapacidade de reconhecer o mérito alheio transforma-se, muitas vezes, numa necessidade constante de desvalorização do outro, como se diminuir alguém fosse a única forma de se sentir relevante. A célebre frase “quando João fala de Paulo, diz mais sobre João do que sobre Paulo” resume com precisão esse comportamento. Quem vive apontando falhas alheias expõe, na verdade, as próprias fragilidades: insegurança, falta de competência, ausência de ética e um profundo vazio formativo. O ataque substitui o argumento, a maledicência ocupa o lugar do trabalho sério e a inveja disfarça-se de opinião. Mais grave ainda é quando adultos — que deveriam ser referência — escolhem esse caminho. Ao falar mal de outros adultos, colegas ou profissionais, e ao minar a cabeça dos alunos com coment...
Há alunos que chegam com os cadernos organizados e o olhar focado, como quem já sabe que o caminho se constrói linha a linha. Há outros que chegam em tempestade, desafiantes, inquietos, a medir o mundo com perguntas e silêncios. Há os trabalhadores incansáveis, os que hesitam, os que adiam, os que riem, os sérios, os sonhadores. Há os que me dão abraços e beijinhos sem aviso, como quem diz sem palavras: “estou aqui”. Há os que já sabem para onde vão, e os que ainda estão a aprender que também é legítimo não saber. E todos, absolutamente todos, têm um lugar na minha vida. Ao longo dos anos, fui percebendo que ensinar Matemática nunca foi apenas sobre números, fórmulas ou resultados certos. Foi sempre sobre pessoas. Sobre encontros. Sobre caminhos que se cruzam sem acaso, como se cada um de vocês chegasse no momento exato em que precisava de chegar — e eu também. Vocês pensam que sou eu que vos ensino. Mas a verdade mais profunda é outra: nós crescemos juntos. Transformaram-me com as v...
Faz dez anos que o medo me tocou à porta. Não entrou de rompante. Não partiu vidros, não gritou o meu nome, não fez escândalo. Chegou discreto, vestido de consulta de rotina, com aquele ar administrativo das coisas que mudam a vida sem pedir licença. Entrou pela voz de um médico, por uma expressão mais séria, por uma sequência de exames que de repente passaram a ter nomes grandes: biópsias, TACs, eletrocardiogramas, análises, relatórios, esperas. A vida, às vezes, vira-se do avesso num gabinete. Num momento estamos inteiras, ocupadas, atrasadas, cheias de tarefas, filhos, aulas, explicações, trabalhos, contas, mensagens por responder. No momento seguinte, percebemos que o corpo, esse companheiro silencioso que damos por garantido, pode tornar-se notícia. Pode falhar. Pode assustar-nos. Pode lembrar-nos, de forma brutal, que não somos imortais. Havia uma corda vocal em perigo. Havia nódulos na tiróide. Havia uma operação marcada de urgência no IPO de Coimbra. Havia filho...
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