Agora que a matemática terminou

Há alunos que deixam de ser apenas alunos. A aula acaba, a matéria termina, os testes passam, os exames ficam para trás, a Matemática deixa de ser o motivo que nos senta à mesma mesa. Já não há trabalhos de casa por fazer, nem raspanetes dados com aquele rigor que é também uma forma de cuidado. Já não há equações para resolver, funções para estudar, probabilidades para calcular. E, no entanto, alguma coisa fica.

Fica uma ligação que já não cabe no nome de professora e aluno.

Há um momento de que sempre gostei muito. Aquele em que me perguntam, quase com cuidado, se me podem tratar por Paula. Pedem licença, como se estivessem a atravessar uma fronteira invisível. E eu digo que sim. Claro que sim. Porque também eu sei que, naquele instante, já não estamos apenas no território da explicação, da exigência, da matéria dada e da matéria sabida. Estamos noutro lugar. Um lugar mais raro, mais bonito, mais duradouro.

A Matemática acabou entre nós, mas ficou qualquer coisa maior do que os números e mais comprida do que o infinito: ficou o carinho.

E a amizade.

São muitos anos disto. Trinta e cinco anos de explicações. Comecei muito nova, ainda na cozinha da minha mãe, sem imaginar que aquela mesa, aqueles cadernos, aquelas primeiras dúvidas, seriam o princípio de uma vida inteira rodeada de alunos. Talvez ninguém saiba isto como eu: ensinar é uma forma de ficar. Ficamos na memória dos outros, sim, mas os outros também ficam em nós.

Eu sei o nome dos meus alunos. De todos.

Lembro-me deles. De cada um. Às vezes já homens e mulheres feitos, pais e mães de família, com vidas inteiras construídas longe dos cadernos onde um dia escreveram contas, gráficos e fórmulas. Alguns a vida levou para longe e só nos vamos encontrando pelas redes sociais ou quando regressam à terrinha e me aparecem à porta, como quem volta a uma casa antiga onde ainda há uma luz acesa.

E é sempre uma alegria.

Vêm sozinhos, vêm com as namoradas, vêm com os maridos, com as esposas, e muitos vêm já com os filhos ao colo ou pela mão. E, sempre que nasce um bebé da Academia, um novo sobrinho desta família imensa, é dia de festa. Há uma lágrima teimosa que me sobe aos olhos, daquelas que fingimos disfarçar, mas que acabam por denunciar tudo. Porque há alegrias que só se partilham com os amigos verdadeiros. Ou com a família.

E talvez seja isso que somos. Uma família.

Ou melhor: uma tribo.

Uma tribo não é apenas um conjunto de pessoas. É um lugar de pertença. É uma fogueira comum onde se aquecem memórias, segredos, cumplicidades, pequenas vitórias e algumas dores. Uma tribo é feita de gente que se reconhece mesmo depois de muito tempo, que guarda histórias que só fazem sentido dentro daquele círculo, que sabe de onde vimos e, por isso, celebra com mais força cada lugar aonde chegamos.

A minha Academia foi-se tornando isso: uma enorme tribo.

Guardamos segredos uns dos outros. Partilhamos momentos. Sabemos coisas que não pertencem ao mundo inteiro, apenas a nós. Há conversas que ficaram entre paredes, lágrimas que caíram sobre folhas de exercícios, gargalhadas que interromperam explicações, medos de exame, desabafos de vida, conquistas pequenas que pareciam gigantes. E tudo isso foi construindo uma rede invisível, mas forte.

Tenho entre antigos alunos alguns dos meus melhores amigos.

Pessoas que conheci adolescentes, com dúvidas de Matemática e pressa de crescer, e que hoje são adultos a quem admiro profundamente. Pais, mães, profissionais, pessoas bonitas, inteiras, generosas. Continuamos a partilhar a vida de todos os dias, já sem a formalidade da aula, mas com a confiança que nasceu nela. Eu torço por eles como sempre torci. E eles continuam a vibrar comigo, a apoiar-me, a fazer parte desta estranha e maravilhosa comunidade de afetos que a vida me deu.

Mas não foram só os alunos que ficaram. Ficaram também muitas mães.

Mães de alunos que, ao longo dos anos, se tornaram amigas, companheiras, confidentes. Mulheres que fizeram parte da minha própria rede de apoio. Muitas ajudaram-me quando os meus filhos eram pequeninos: traziam-nos da escola, levavam-nos à natação, ao karaté, davam-me aquela ajuda concreta e preciosa que só outra mãe compreende. Com elas aprendi também a criar os meus. No exemplo delas, muitas vezes, alicercei o meu. Fomos crescendo juntas, entre horários, boleias, preocupações, cafés, confidências e aquela solidariedade silenciosa que as mulheres constroem quando a vida aperta.

Ainda hoje há mães novas a chegar à minha vida.

E eu continuo a aprender com todas. Com a confiança que depositam em mim. Com a forma como me entregam o que têm de mais precioso. Com as suas perguntas, os seus receios, a sua esperança. A todas sou grata. Pela confiança. Pela partilha. Pelo respeito. Pelo modo como entram, devagar, neste território que começa no estudo, mas tantas vezes acaba no coração.

Acho que muitos professores saberão do que falo.

Desta gratidão difícil de explicar. Desta admiração profunda por aqueles que acompanhamos durante um pedaço do caminho. Ensinamos, é verdade. Mas também somos ensinados. Por cada aluno que insiste, por cada mãe que confia, por cada família que nos abre a porta, por cada jovem que cresce diante dos nossos olhos e depois regressa, já adulto, trazendo consigo a prova viva de que o tempo passou, mas o laço ficou.

Talvez seja esta a parte mais bonita de ensinar.

Não é a matéria. Não são os programas. Não são os exames. Tudo isso importa, claro. Mas passa.

O que fica depois da aula é outra coisa. Fica o nome próprio pelo qual insisto que me tratem. Fica o olhar. Fica a confiança. Fica o orgulho.

Fica a alegria de ver crescer. Fica a certeza de que, em algum momento, fizemos parte da vida uns dos outros.

E há poucas coisas tão bonitas como esta: perceber que uma explicação pode começar com uma dúvida de Matemática e, muitos anos depois, transformar-se numa amizade, numa visita, numa mensagem, numa fotografia de um bebé, num abraço à porta, numa lágrima feliz.

A aula acaba. A matéria termina. Mas há ligações que continuam. Para lá do quadro, dos testes e dos anos.

Para lá da professora e do aluno. Para lá dos números.

No lugar onde a vida, às vezes, faz as suas contas mais bonitas.

PB

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