Tempo

Há pessoas que medem a vida pelo que conseguem fazer.

Eu começo a achar que talvez a vida se meça melhor pelo tempo que conseguimos dar.

Não falo do tempo que sobra, porque esse quase nunca existe. Falo do tempo que se arranca à pressa, que se estica entre dois empregos, uma tese, uma casa, uma família, uma vida inteira a pedir-nos presença em sítios diferentes ao mesmo tempo. Falo daquele tempo pequeno, mas imenso, em que paramos para perguntar: como estás?

E ficamos mesmo à espera da resposta.

Tenho uma vida cheia. Cheia demais, às vezes. Trabalho muitas horas, divido-me, somo tarefas, levo dias ao limite como quem tenta fazer caber o mundo numa mala pequena. Sou mãe, filha, esposa, professora, estudante, trabalhadora. Mas também sou amiga. E algo de muito errado estaria na minha vida se, na ânsia de ser mais, eu me esquecesse dos que são meus.

Porque de que valem os títulos, os sucessos, as conquistas, as metas cumpridas, se pelo caminho deixarmos de ter tempo para um café com uma amiga? Para um lanche. Um almoço. Cinco minutos de telefonema. Uma mensagem simples. Um “lembrei-me de ti”. Um “estás bem?”. Um “conta-me”.

O cuidado não precisa sempre de grandes gestos.

Às vezes é só aparecer. Escutar sem pressa. Lembrar uma data. Perguntar duas vezes. Mandar uma mensagem quando sentimos que alguém pode precisar. Sentar à mesa e deixar que o outro fale até esvaziar um bocadinho o peito. Há pessoas que não precisam que lhes resolvamos a vida; precisam apenas de sentir que não estão sozinhas dentro dela.

Talvez seja isso o melhor que podemos dar aos outros: atenção.

Atenção verdadeira. Daquela que não olha para o telemóvel enquanto o outro fala. Daquela que percebe uma tristeza no tom de voz. Daquela que sabe que um silêncio também pode ser um pedido. Daquela que diz: estou aqui, mesmo que não tenha muito tempo, mesmo que esteja cansada, mesmo que a minha vida esteja cheia. Estou aqui.

Ser casa para alguém não significa carregar tudo.

Significa ser lugar seguro. Ser abrigo quando o mundo pesa. Ser uma porta que não se fecha logo. Ser uma cadeira à mesa. Ser presença. E presença, hoje, talvez seja uma das formas mais raras de amor.

O que tenho de mais precioso é o meu tempo.

E talvez por isso o dê com tanto cuidado. Tento esticá-lo para que caibam os meus. Para que caibam os filhos, os pais, o amor, os alunos, os amigos, as pessoas que me importam. Nem sempre consigo como queria. Falho, atraso-me, chego cansada, mas nunca me esqueço. E tento, todos os dias, não deixar que a correria me roube aquilo que me torna mais humana.

Porque, no fim, da minha vida eu não queria que dissessem apenas: ela fez. Ela conseguiu. Ela chegou lá.

Preferia que dissessem: ela esteve.

Esteve quando foi preciso. Esteve na alegria e na queda. Esteve no café, na mensagem, no telefonema, no abraço, na palavra certa ou no silêncio que amparou. Esteve mesmo cansada. Esteve mesmo sem tempo. Esteve porque amava.

Talvez a vida seja isso: não deixar que a vontade de subir nos faça esquecer quem nos segurou a mão pelo caminho.

E se um dia eu tiver de escolher entre parecer muito importante ou ser profundamente presente, espero escolher a segunda.

Porque os títulos ficam bonitos nas paredes. Mas o cuidado fica para sempre na memória dos outros, no lugar onde fomos abrigo e no coração de quem nunca se esqueceu de que estivemos lá.

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