origens
Sei de onde venho.
E há uma paz antiga em poder dizê-lo sem vergonha, sem enfeites e sem necessidade de parecer maior do que sou. Sei onde nasci. Sei quem me trouxe até aqui. Sei as mãos que me ajudaram, as vozes que me ampararam, os gestos que me abriram caminho quando o caminho ainda era estreito.
Não esqueço.
Não esqueço quem me deu a mão. Quem acreditou. Quem me empurrou para a frente quando eu ainda não sabia bem que podia ir. Não esqueço os que me ensinaram, com pouco discurso e muito exemplo, que a dignidade não mora no que se tem, mas na forma como se vive.
Sou neta de gente simples.
Gente de trabalho, de palavra, de mãos gastas e costas direitas. Gente que talvez não tivesse muito para deixar em herança, mas deixou aquilo que mais importa: honestidade, resistência, coragem e uma certa maneira limpa de olhar os outros nos olhos. Há riquezas que não aparecem nos bancos. Passam-nos pelo sangue, pelo nome, pela memória, pela forma como entramos numa sala sem esquecer a porta por onde viemos.
Sou filha de pessoas que trabalharam muito.
Pessoas que abdicaram de si para que houvesse para mim. Que fizeram contas silenciosas. Que talvez tenham guardado desejos numa gaveta para que os meus pudessem respirar melhor. Cresci a perceber que o amor, muitas vezes, não se declara: levanta-se cedo, trabalha, poupa, insiste, cala cansaços, faz render o pouco e sorri para não pesar.
Não nasci em berço de ouro.
Nasci onde a vida se aprende com as mãos. Onde nada chega por acaso. Onde cada conquista tem o peso do esforço. Tudo o que tenho, tudo o que alcancei, tudo o que ainda tento construir, veio e vem de trabalho diário, teimoso, muitas vezes invisível. Não devo ao acaso aquilo que me custou caminho.
E talvez seja por isso que não me deslumbro facilmente.
Agradeço, sim. Celebro, sim. Orgulho-me, sim. Mas não me esqueço. Há quem suba alguns degraus e comece a olhar de cima para quem ficou no chão. Eu não. Porque sei que o chão onde nasci foi também a minha primeira escola. Foi ali que aprendi a firmeza. Foi ali que aprendi que humildade não é pensar pouco de nós; é saber exatamente quem somos sem precisar diminuir ninguém.
Nasci na Serra da Estrela.
E talvez a serra nunca saia verdadeiramente de quem nasce nela. Trago em mim a força do vento, a aspereza da rocha granítica, a persistência das giestas que florescem onde parecia impossível. A serra ensina-nos cedo que a beleza também pode ser dura. Que há frio que forma caráter. Que há caminhos íngremes que nos obrigam a ganhar fôlego. Que só chega ao alto quem aprende a respeitar a subida.
Da rocha fiz a minha personalidade.
Não porque seja fria, mas porque sou firme. Não porque não sinta, mas porque aprendi a resistir. Sou dura na queda. Posso abanar, posso cansar, posso chorar em silêncio, mas não desisto facilmente. Há em mim qualquer coisa de pedra e de raiz: uma parte que aguenta, outra que procura sempre mais fundo para continuar de pé.
Sei o caminho que fiz.
Sei as horas, os sacrifícios, os medos engolidos, as dúvidas vencidas, os dias em que ninguém viu o esforço. Sei o que me custou chegar onde cheguei. Sei também que ainda tenho muito por andar, aprender, crescer e corrigir. A consciência das conquistas não me tira a humildade; pelo contrário, aumenta-a. Quanto mais caminho faço, mais percebo o tamanho da estrada.
Não sou melhor do que ninguém.
Mas também não finjo ser menos do que sou.
Carrego as minhas origens como quem carrega uma luz antiga. Não para me prender ao passado, mas para me lembrar da matéria de que sou feita. Sou feita de serra, de trabalho, de família, de gratidão, de luta, de amor recebido em forma de sacrifício. Sou feita de quem veio antes de mim e abriu caminho com as mãos para que eu pudesse caminhar com os pés mais livres.
E talvez a maior conquista seja esta: poder olhar para trás sem vergonha e para a frente sem medo.
Saber de onde venho.
Saber o que devo.
Saber quem sou.
Saber que nada me foi simplesmente dado.
Não esqueço as minhas raízes, talvez porque saiba que uma árvore só cresce em altura quando não renega a terra que a sustenta.
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