👨👩👧 Manual de instruções para mães (im)perfeitas
Dizem que os bebés não vêm com manual.
É mentira.
Vêm, sim. Só que o manual desaparece na maternidade, entre a primeira fralda mal posta, a pulseira do hospital, três conselhos contraditórios e uma enfermeira que diz “descanse” como se isso fosse uma atividade realista.
A partir daí, a maternidade transforma-se numa espécie de curso avançado de improvisação com privação de sono. E nós, mães, passamos a viver num equilíbrio delicado entre o amor absoluto e a sensação persistente de que estamos a fazer tudo “mais ou menos”. Às vezes mais. Muitas vezes menos. Quase sempre cansadas.
Ser mãe, hoje, tem qualquer coisa de maratona emocional com agenda digital. É preciso amar muito, organizar muito, prever muito, sentir muito e falhar discretamente, para não assustar ninguém. Há consultas, lancheiras, e-mails da escola, grupos de WhatsApp, roupa para dobrar, culpa para gerir e a permanente sensação de que há qualquer coisa importante a escapar-nos — normalmente um prazo, uma vacina ou a última dose de paciência.
No meio disto, espera-se de nós uma serenidade quase ornamental. Como se fosse possível educar uma criança, trabalhar, responder com delicadeza, cozinhar qualquer coisa minimamente verde e ainda manter um brilho tranquilo no olhar. Há mães que conseguem. Ou fingem muito bem. O que, convenhamos, também é uma competência.
Mas a verdade é menos fotogénica.
A verdade é que há dias em que a maternidade nos encontra com olheiras na alma. Dias em que amamos profundamente e, ao mesmo tempo, queremos cinco minutos sem ninguém a chamar “mãe” como se estivesse a anunciar o fim do mundo. Dias em que prometemos paciência e oferecemos exaustão. Dias em que respondemos demasiado depressa, abraçamos demasiado tarde e passamos o resto da noite a rever a cena como quem analisa um acidente doméstico de afetos.
Talvez seja isto que custa mais: amar tanto e nem sempre saber amar bem.
Porque amar um filho não nos transforma automaticamente em criaturas sábias, calmas e emocionalmente hidratadas. Amar um filho não nos cura a pressa, não nos resolve as feridas antigas, não nos dá superpoderes. Dá-nos, isso sim, um coração fora do corpo e uma vulnerabilidade nova, daquelas que já não voltam para trás.
A maternidade tem este lado pouco glamoroso: mostra-nos onde nos dói. Obriga-nos a olhar para os nossos limites, para a infância que ainda nos habita, para o medo de repetir o que nos feriu e para a exaustão de tentar fazer melhor sem saber exatamente como. Há mães que não têm medo de falhar. Eu desconfio delas. Ou então dormem muito melhor do que eu.
As mães de hoje carregam uma espécie de paradoxo moderno: têm mais informação do que nunca e, ao mesmo tempo, mais insegurança do que seria desejável a qualquer ser humano que esteja a tentar cortar uvas ao meio às sete da manhã. Sabemos tudo sobre vínculos, desenvolvimento, neurociência, ecrãs, birras, respiração consciente e alimentação intuitiva. E, ainda assim, continuamos a não saber o que dizer quando um filho chora sem explicação, quando fecha a porta com força ou quando nos olha como se fôssemos, em simultâneo, abrigo e problema.
Não há tutorial para isso.
Não há vídeo curto, nem podcast, nem infografia bonita em tons pastel que explique o que fazer quando o amor vem misturado com medo. Quando queremos proteger sem prender. Quando queremos estar presentes sem desaparecer de nós próprias. Quando queremos dar-lhes raízes e asas, mas, se possível, com GPS.
E no entanto, no meio de toda esta insuficiência, há qualquer coisa de milagroso.
As mães falham. Falham no tom, no timing, na energia, na perfeição impossível que prometeram a si mesmas. Mas voltam. E talvez a maternidade more menos no acerto do que no regresso. Na capacidade de reparar. De pedir desculpa. De recomeçar antes do pequeno-almoço ou depois de uma porta batida. De amar até acertar — não porque um dia acertemos sempre, mas porque o amor, quando é verdadeiro, vai afinando as mãos.
Uma mãe não se mede pela quantidade de vezes que faz tudo certo. Mede-se pela maneira como fica. Como aprende. Como escuta. Como tenta outra vez, mesmo depois de um dia miserável. Mede-se pela coragem de continuar a ser colo quando por dentro também precisava de colo.
Os filhos, creio eu, não precisam de mães perfeitas. Precisam de mães suficientemente humanas para lhes ensinarem uma coisa raríssima: que amar alguém não é nunca falhar; é falhar sem abandonar. É errar sem desistir. É perder a paciência e depois encontrar humildade. É ser porto, mesmo nos dias em que o mar passa por dentro de nós.
Talvez seja isso que um filho guarda: não a perfeição, mas a permanência.
A mãe que não soube sempre.
Mas ficou.
A que nem sempre disse a frase certa.
Mas disse “desculpa”.
A que teve medo.
Mas não fugiu.
A que às vezes tremeu.
Mas segurou.
No fundo, a maternidade talvez seja isto: uma arte imperfeita de amar alguém enquanto nos vamos tornando alguém também. Um trabalho invisível, quase sempre sem aplauso, onde se mistura ternura com logística, culpa com graça, cansaço com coragem. E um sentido de humor mínimo, mas indispensável — porque há momentos em que só restam duas opções: rir ou responder ao terceiro “mãeeee” do minuto com um pequeno colapso cénico.
Não há manuais para mães perfeitas. Ainda bem.
Se existissem, talvez nos tornassem demasiado seguras, demasiado certas, demasiado arrumadas. E os filhos, suspeito, não crescem melhor com mães impecáveis. Crescem melhor com mães verdadeiras.
Mães que falham, sim.
Mas falham ficando.
>Falham amando.
E que falham até acertar.
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